A pergunta parece
estranha. Se as empresas reclamam que não encontram profissionais, seria
razoável imaginar que existe um grande contingente de pessoas desempregadas
esperando uma oportunidade. Mas os números mais recentes do mercado de trabalho
brasileiro contam uma história bem mais complexa. No trimestre encerrado em
julho, a taxa de desemprego caiu para 5,3%, o menor nível para esse período desde o início da
série histórica da PNAD Contínua. A população ocupada chegou a 103,3
milhões de pessoas, também um recorde.
O número de trabalhadores do setor privado com carteira assinada alcançou 39,4
milhões. Então, se há tanta gente trabalhando, onde está o problema? Talvez
esteja justamente na pergunta. Em julho, o Brasil criou 58,5 mil
empregos formais, uma queda de 56,3%
em relação ao mesmo mês de 2025. Ao mesmo tempo, empresas continuam relatando
dificuldade para encontrar profissionais com as competências necessárias. Uma
pesquisa recente da PwC mostra que 33% dos CEOs brasileiros reconhecem que não
conseguem contratar os profissionais necessários para sustentar a transformação
dos negócios. Temos, portanto, um
paradoxo: o desemprego diminui, mas encontrar determinadas competências fica
mais difícil. E a Inteligência Artificial torna esse cenário ainda mais
interessante. O Barômetro de Empregos de IA 2026, da PwC, analisou mais de um
bilhão de anúncios de vagas e identificou que, no Brasil, a participação das
vagas que exigem competências em IA saltou de 1,1% em 2024 para 3,6% em 2025, quase 119 mil
oportunidades. Mais importante: nas ocupações mais expostas à IA, as
competências exigidas estão mudando mais de duas vezes mais rápido. Ou seja,
não estamos apenas diante de uma mudança na quantidade de empregos. Estamos
diante de uma mudança no tipo de profissional que as empresas precisam. O candidato que
ontem era considerado preparado pode não possuir hoje as competências
necessárias. E aquele que ainda não reúne todas elas talvez tenha algo
igualmente importante: potencial para desenvolvê-las. Isso muda completamente o
papel do RH. Durante muito tempo, recrutamento significou encontrar alguém que
já soubesse fazer aquilo que a empresa precisava. O mercado de trabalho de 2030
parece nos obrigar a fazer outra pergunta: E se o profissional que procuramos ainda não
estiver pronto? Nesse cenário,
recrutar continuará sendo importante. Mas identificar potencial, desenvolver
competências, requalificar profissionais e criar condições para que as pessoas
aprendam continuamente serão tarefas cada vez mais estratégicas. Talvez o
profissional que as empresas procuram não esteja desempregado. Talvez ele
esteja trabalhando em outra função. Talvez esteja em outra cidade. Talvez
esteja na informalidade. Ou talvez esteja dentro da própria empresa — esperando
uma oportunidade para se desenvolver. A grande disputa do mercado de trabalho
de 2030 poderá não ser por profissionais prontos. Será por empresas capazes de preparar
pessoas para o trabalho que ainda está por vir.
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