RH em Pauta

Mercado de Trabalho 2030: talvez o problema não seja a falta de empregos

01/09/2026 | Por: www.atribunapiracicabana.com.br

RH em Pauta

Há algum tempo, durante uma consultoria, recebi uma tarefa que parecia simples: avaliar a disponibilidade de mão de obra necessária para sustentar um novo empreendimento. Na análise SWOT, a falta de trabalhadores apareceu como uma ameaça. A princípio, parece estranho falar em falta de mão de obra em um país que ainda convive com desemprego, informalidade e milhões de famílias atendidas por programas de transferência de renda. Mas talvez aí esteja justamente o problema. Recentemente, circulou uma imagem comparando o número de famílias do Bolsa Família com o número de empregos formais em alguns estados brasileiros. A matemática da imagem pode até estar correta. A interpretação, porém, não. Famílias e empregos não são grandezas equivalentes. Uma família pode ter uma ou várias pessoas trabalhando. Pode haver trabalhadores formais, informais, autônomos ou pessoas fora da força de trabalho. Quando olhamos os indicadores corretos, entretanto, encontramos algo interessante: muitos dos estados apresentados na imagem possuem taxas de informalidade e desemprego superiores à média nacional. Ou seja, o problema brasileiro não parece ser simplesmente a ausência de trabalho. É algo mais complexo: o desencontro entre pessoas, competências, território e oportunidades. E isso nos leva diretamente a 2030. O futuro do trabalho não será determinado apenas pela quantidade de empregos existentes. Será determinado pela capacidade de encontrar — ou formar — pessoas capazes de ocupá-los. A inteligência artificial e a automação já estão transformando tarefas. O envelhecimento da população reduzirá progressivamente a entrada de jovens no mercado. Empresas continuarão buscando produtividade. E determinadas regiões continuarão convivendo com informalidade elevada enquanto outras enfrentarão dificuldade para preencher vagas. Temos, portanto, um paradoxo: podemos ter pessoas procurando trabalho e empresas procurando pessoas ao mesmo tempo. A questão será: elas possuem as competências necessárias? Talvez seja hora de mudar a pergunta. Em vez de: “Onde estão os trabalhadores? ” começarmos a perguntar: “Onde estão as competências de que precisamos — e o que estamos fazendo para desenvolvê-las?” Isso muda também o papel do RH. Recrutar continuará sendo importante. Mas recrutar, sozinho, talvez não seja suficiente. O RH de 2030 precisará atuar cada vez mais em recrutamento, desenvolvimento, requalificação e retenção. A empresa que simplesmente procurar profissionais prontos poderá descobrir que eles são poucos, caros ou simplesmente não existem. A empresa que aprender a identificar potencial e desenvolver competências terá outra vantagem competitiva. Talvez, portanto, a grande ameaça do mercado de trabalho de 2030 não seja a inteligência artificial. Talvez seja a incapacidade de preparar pessoas para trabalhar com ela. E aquela antiga ameaça identificada naquela análise SWOT começa a ganhar outro significado. Não se trata apenas de falta de mão de obra. Trata-se de falta de mão de obra preparada para o trabalho que vem pela frente. E essa diferença pode definir quais empresas crescerão — e quais ficarão procurando candidatos.

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