Há algum tempo,
durante uma consultoria, recebi uma tarefa que parecia simples: avaliar a
disponibilidade de mão de obra necessária para sustentar um novo
empreendimento. Na análise SWOT, a falta de trabalhadores apareceu como uma ameaça. A princípio, parece
estranho falar em falta de mão de obra em um país que ainda convive com
desemprego, informalidade e milhões de famílias atendidas por programas de
transferência de renda. Mas talvez aí esteja justamente o problema. Recentemente,
circulou uma imagem comparando o número de famílias do Bolsa Família com o
número de empregos formais em alguns estados brasileiros. A matemática da
imagem pode até estar correta. A interpretação, porém, não. Famílias
e empregos não são grandezas equivalentes. Uma família pode ter uma ou várias pessoas
trabalhando. Pode haver trabalhadores formais, informais, autônomos ou pessoas
fora da força de trabalho. Quando olhamos os indicadores corretos, entretanto,
encontramos algo interessante: muitos dos estados apresentados na imagem
possuem taxas
de informalidade e desemprego superiores à média nacional. Ou seja, o problema
brasileiro não parece ser simplesmente a ausência de trabalho. É algo mais
complexo: o
desencontro entre pessoas, competências, território e oportunidades. E isso nos leva
diretamente a 2030. O futuro do trabalho não será determinado apenas pela
quantidade de empregos existentes. Será determinado pela capacidade de
encontrar — ou formar — pessoas capazes de ocupá-los. A inteligência artificial
e a automação já estão transformando tarefas. O envelhecimento da população
reduzirá progressivamente a entrada de jovens no mercado. Empresas continuarão
buscando produtividade. E determinadas regiões continuarão convivendo com
informalidade elevada enquanto outras enfrentarão dificuldade para preencher
vagas. Temos, portanto, um paradoxo: podemos ter pessoas procurando trabalho e empresas
procurando pessoas ao mesmo tempo. A questão será: elas possuem as competências
necessárias? Talvez seja hora de mudar a pergunta. Em vez de: “Onde
estão os trabalhadores? ” começarmos a perguntar: “Onde estão as competências de que precisamos —
e o que estamos fazendo para desenvolvê-las?” Isso muda também o papel do RH. Recrutar continuará
sendo importante. Mas recrutar, sozinho, talvez não seja suficiente. O RH de
2030 precisará atuar cada vez mais em recrutamento, desenvolvimento, requalificação e
retenção. A empresa que
simplesmente procurar profissionais prontos poderá descobrir que eles são
poucos, caros ou simplesmente não existem. A empresa que aprender a identificar
potencial e desenvolver competências terá outra vantagem competitiva. Talvez,
portanto, a grande ameaça do mercado de trabalho de 2030 não seja a
inteligência artificial. Talvez seja a incapacidade de preparar pessoas
para trabalhar com ela. E aquela antiga ameaça identificada naquela análise
SWOT começa a ganhar outro significado. Não se trata apenas de falta de
mão de obra. Trata-se de falta de
mão de obra preparada para o trabalho que vem pela frente. E essa diferença
pode definir quais empresas crescerão — e quais ficarão procurando candidatos.
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