Estava inclinado a
escrever um artigo sobre as diferentes gerações que encontramos na Seleção
Brasileira durante esta Copa do Mundo. Talvez motivado pela consistente vitória
sobre o Haiti e pela expectativa em torno dos próximos jogos. Afinal, assim
como acontece nas empresas, o futebol também nos oferece excelentes exemplos de
liderança, formação de equipes e gestão de talentos. Mas, como os dados ainda estão rolando e os
próximos jogos certamente trarão novos elementos de análise, decidi adiar esse
tema por alguns dias. O motivo foi
outro. Nas próximas semanas terei a
oportunidade de conhecer melhor uma Talent Intelligence Platform e conversar
com profissionais que vêm utilizando Inteligência Artificial para transformar
processos de recrutamento e seleção. E confesso que essa perspectiva tem me
causado certa perplexidade. Não pela
tecnologia em si. Quem acompanha a
evolução do mercado sabe que a Inteligência Artificial já está presente em
praticamente todas as áreas da economia. Ela organiza informações, analisa
dados, identifica padrões e executa tarefas em uma velocidade impossível para
qualquer ser humano. A minha inquietação
é outra. O que acontecerá com o papel do
recrutador quando a tecnologia passar a fazer boa parte daquilo que
tradicionalmente consumia seu tempo?
Durante muitos anos, profissionais de RH dedicaram horas à leitura de
currículos, triagem de candidatos, agendamentos, entrevistas iniciais e
consolidação de informações. Hoje, parte dessas atividades já pode ser
executada por algoritmos capazes de processar milhares de dados em poucos
segundos. Diante dessa realidade, muitas
pessoas perguntam: "A Inteligência
Artificial vai substituir o RH?"
Talvez essa seja a pergunta errada.
A pergunta correta pode ser:
"O que sobrará para o RH quando a tecnologia assumir as tarefas
repetitivas?" E a resposta me
parece surpreendentemente simples.
Sobrarão as pessoas. Recentemente
participei do 20º Congresso Empresarial da ACIPI e uma das experiências mais
interessantes do evento foi justamente a utilização da Inteligência Artificial
para consolidar conhecimentos e gerar insights. No entanto, o que mais me
chamou atenção foi que os principais aprendizados do congresso não foram sobre
tecnologia. Foram sobre humanidade. Roberto Tranjan destacou a importância da
liderança consciente e da capacidade de inspirar pessoas. Sabina Deweik falou
sobre antifragilidade e adaptação em tempos de transformação acelerada,
reforçando que características como empatia, colaboração e pensamento crítico
se tornam ainda mais valiosas. Gustavo Borges lembrou que resultados continuam
sendo consequência de disciplina, comprometimento e execução. Nenhuma dessas competências pode ser
totalmente automatizada. A Inteligência
Artificial pode analisar currículos. Pode cruzar informações. Pode sugerir
candidatos. Pode até realizar entrevistas iniciais. Mas continua existindo um momento em que um
gestor olha para o recrutador e diz:
"Preciso de alguém tecnicamente competente, mas principalmente
alguém em quem eu possa confiar." E
é justamente nesse ponto que a tecnologia encontra seus limites. Confiança.
Relacionamento. Propósito. Cultura.
Liderança. Talvez o futuro do RH
não seja menos humano. Talvez seja mais
humano do que nunca. E, para encerrar,
deixo uma provocação inspirada pela Copa do Mundo que estamos acompanhando. Será que um dia veremos seleções nacionais
sendo convocadas por Inteligência Artificial?
Talvez sim. Ela certamente
analisará desempenho, estatísticas, histórico de lesões, condicionamento físico
e milhares de variáveis em poucos segundos.
Mas ainda assim restará uma pergunta.
Quem escolherá o capitão? Quem
inspirará o grupo nos momentos difíceis?
Quem transformará talentos individuais em uma equipe vencedora? Enquanto essas respostas continuarem sendo
humanas, acredito que ainda teremos muito trabalho pela frente. Porque talvez a maior contribuição da
Inteligência Artificial não seja substituir pessoas. Talvez seja nos lembrar daquilo que nos torna
verdadeiramente humanos.
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